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O "Pequeno Diário de um Fotógrafo em Experimentação" traz fragmentos visuais, construído a partir das minhas vivências, observações espontâneas e ensaios visuais que, no lugar de seguir uma linearidade narrativa propõem uma escuta visual subjetiva, onde o acaso ganha potência poética, sempre centrada no processo criativo, na pesquisa visual e na experimentação estética, seja através das fotografias ou pequenos vídeos.

 

Nas imagens, exploro a arquitetura da metrópole, sua população e, principalmentes os "não-lugares", termo cunhado pelo antropólogo Marc Augé para descrever espaços de trânsito e circulação que, embora presentes na vida urbana contemporânea, não geram raízes afetivas ou identitárias. Os encontros humanos são breves, funcionais e impessoais; a subjetividade tende a ser suspensa e o indivíduo se torna, muitas vezes, apenas um usuário, um consumidor ou um corpo em deslocamento.

 

Ao incluir esses lugares no diário tento mostrar que a cidade também existe nesses espaços pelos quais passamos sem perceber. Mesmo sendo locais comuns e anônimos, eles revelam pequenas belezas e histórias que surgem justamente do que é simples e passageiro. Um convite a pensarmos sobre as nossas relações com a cidade e a notar que, mesmo nos lugares onde ninguém se conhece, ainda existem detalhes, sentimentos e narrativas escondidas.

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O Começo

O primeiro trabalho deste projeto surgiu quando fotografei, através da grade vazada do portão, as pessoas andando apressadas na calçada do outro lado da rua. As imagens ficaram cheias de pequenos pontos e partes separadas, e isso imediatamente me fez lembrar dois movimentos artísticos: o Pictorialismo, que busca dar um ar mais artístico e suave às fotos, e o Pontilhismo, em que as imagens são formadas por vários pontos.

​O Pictorialismo, foi um movimento fotográfico surgido no final do século XIX, que buscava aproximar a fotografia das artes plásticas, valorizando a subjetividade, o gesto e a intervenção do autor na imagem. Em vez de registrar o real com precisão técnica, os pictorialistas preferiam atmosferas difusas, composições suaves e uma estética que evocava a pintura impressionista. Nesse sentido, as imagens que se tornaram um tríptico, dialoga com essa tradição ao propor uma visão mediada e sensível do espaço, onde não atravessa totalmente a barreira, mas se detém nas nuances e nas texturas que a própria estrutura impõe.

​Já o Pontilhismo exige que, para que a cena seja percebida em sua totalidade, o observador se afaste. É preciso distância para que a imagem se revele por completo. Essa ideia traz uma reflexão filosófica, de que muitas vezes estamos tão imersos nas situações, tão “dentro das coisas”, que nos falta o distanciamento necessário para uma visão mais ampla e holística. A relevância do local pra mim, a escola, e a exploração estética entre Pontilhismo e Pictorialismo fazem desta uma das minhas séries favoritas.

Foi a partir daí que veio a ideia de fazer um pequeno diário sobre as minhas fotografias e o processo criativo, transformando essas primeiras descobertas em uma investigação contínua sobre como vejo, interpreto e reinvento o mundo ao meu redor por meio da imagem.

Céu e Contraste 

Quem nunca fotografou o céu? Entre os meus registros, um díptico dedicado ao céu de São Paulo, que batizei, meio de brincadeira e meio a sério, de A Ira de Alfred Stieglitz, é um dos favoritos da minha família.

 

Stieglitz (1864–1946) foi um fotógrafo americano que, numa pegada modernista, resolveu provar que a fotografia era pura arte. Ele fez a icônica série 'Equivalents', com umas 200 fotos, passando quase uma década explorando o céu como pura expressão abstrata e emocional. A ideia dele era simples, mas com uma proposta bastante interessante: focar nas nuvens – algo 'banal', sem 'privilégios especiais' – para provar que a emoção estava na sua visão, na forma, no enquadramento, e não no objeto fotografado.

 

O ponto é que a maioria dos 'Equivalents' de Stieglitz (em preto e branco) revela um céu que parece quase... apaziguador. E é aí que entra a 'Ira'. Um contraponto direto a essa calmaria, com um céu de São Paulo em tons alaranjados, densos e saturados.

 

Longe de ser pacífico, as imagens refletem a intensa poluição e a complexidade caótica da nossa dinâmica atual.

A presença do P.B.

Enquanto eu ia experimentando, várias vezes acabei escolhendo editar as fotos em preto e branco. Esse tipo de imagem tem aquele clima mais clássico, que lembra as câmeras antigas e toda a história da fotografia. Além disso, o P&B destaca melhor as formas, as texturas e os contrastes, deixando a cor de lado pra mostrar o olhar, o gesto, a luz e a composição.


Outra coisa é que o preto e branco também ajuda a “disfarçar” alguns erros técnicos. Às vezes o balanço de branco fica esquisito, a iluminação não ajuda ou as cores não combinam, coisas super normais quando a gente está testando. Nesses momentos, o P&B salva a foto. Ao tirar a cor, esses problemas ficam menos evidentes, e a foto pode ganhar um charme inesperado, como a imagem da janela em que a luz do sol a registra na parede, como no processo clássico da fotografia analógica, quando a luz entra na câmera (janela) e impressiona o negativo (o filme).

A Fragilidade Humana e a Arte Urbana

Na fotografia de rua, a gente acaba esbarrando muito em temas ligados ao dia a dia das pessoas nas grandes cidades. Em certo momento, essas questões humanas ficam tão fortes que simplesmente aparecem na foto. Uma dessas cenas, que mostra introspecção e vulnerabilidade, acabou fazendo parte da exposição Outros Afetos, na Porto de Cultura, na Vila Madalena, em São Paulo, em setembro de 2025.

​Na imagem, o corpo do homem forma quase um retângulo e contrasta com as linhas da escada. Eu tirei a profundidade dos degraus, então tudo fica parecendo um muro. Quando a foto é colocada na moldura, isso dá a sensação de que o personagem está sendo pressionado contra o vidro, reforçando ainda os sentimentos de isolamento e vulnerabilidade.

Mesmo sendo uma foto documental, ela também lembra um pouco os trabalhos do artista Banksy, especialmente o jeito como ele usa estêncil. A imagem passa aquela sensação de um personagem grafitado, sozinho e meio deslocado no meio da cidade.

Proximidade Desconectada

Com um olhar mais atentos aos não-lugares, é possivel observar a introspecção na era da hiperconectividade, como na imagem em que mostro dois passageiros sob a luz branca intensa do metrô, ambos imersos em seus celulares, alheios à presença um do outro, apesar de dividirem o mesmo espaço.

​Essa cena me lembrou a pintura Nighthawks (1942), do artista Edward Hopper. É uma obra feita depois da Segunda Guerra Mundial que mostra uma lanchonete aberta à noite, iluminada artificialmente, com três clientes e um atendente. Assim como na foto do metrô, ninguém interage, e o clima de solidão aparece e pelo espaço vazio ao redor. As pessoas estão perto, mas emocionalmente distantes, como se cada uma estivesse vivendo em seu próprio mundo.​

Anderson Couto 

São Paulo - SP. 

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